quinta-feira, 16 de julho de 2009

Letra, melodia e alma



O cantor León Gieco nunca jogou futebol na Bombonera ou em Avellaneda. Talvez por isso, mesmo sendo um dos maiores nomes da música argentina em todos os tempos, seja pouco conhecido no Brasil. Uma pena. Dono de voz marcante, melodias riquíssimas e letras que misturam poesia com contestação, é um artista magnífico.

Um de seus maiores hits é "Solo le Pido a Diós" (Somente Peço a Deus), canção que fala sobre as tristezas da guerra. Foi composta em 1978, quando argentinos e chilenos estavam quase entrando em combate por causa de algumas ilhas no Pacífico. Apesar do tema bélico, a música foi considerada pacifista. Um crítico chegou a escrever que virou um hino de esperança, "como um vaso de água fresca em pleno deserto".

O refrão diz: "Solo le Pido a Diós que la guerra no me sea indiferente... es un monstruo grande y pisa fuerte toda la pobre inocencia de la gente." Algo como "peço a Deus que eu não fique indiferente à guerra, um monstro que pisa com força na pobre inocência das pessoas".

O que a letra desta linda canção (você pode conferí-la no vídeo abaixo) e um artista argentino estão fazendo num texto de futebol? Bem, quero traçar uma ligação com a Libertadores 2009. Competição vencida, com justiça, pelo Estudiantes de La Plata. Poucos brasileiros acreditavam na equipe argentina. Até porque o Cruzeiro, vice-campeão, tinha jogado um futebol mais convincente ao longo do torneio.

Sim, mas quem jogou mais nas finais foi a equipe de Juan Sebastian Veron. O veterano craque da seleção argentina foi o professor dos "estudiantes" (não pude evitar a brincadeira), comandando a equipe em sua quarta conquista continental. Não foi brilhante, mas valente e decisivo. Iniciou a jogada do gol de empate e cruzou a bola para o tento da vitória, ambos marcados no Mineirão. Palco de mais um vexame brasileiro frente aos "hermanos".

Nos últimos quinze anos, brasileiros e argentinos se enfrentaram na final da Libertadores em cinco oportunidades. Eles levaram a melhor em todas. Em alguns casos, tinham realmente mais time. Em outros, como no jogo desta semana, foram superiores "apenas" na tática e determinação.

Estranhamente, alguns acharam que o empate em La Plata, na semana passada, havia assegurado o terceiro título continental para a equipe mineira. Esqueceram do tradicional poder de recuperação dos argentinos. Foram, como na letra de Gieco, "indiferentes" à guerra, ainda não terminada. O "monstro" veio ao Brasil e pisou com força na "pobre inocência de la gente". Na inocência de quem achou que a batalha estava ganha.

León Gieco costuma dizer que as músicas são feitas de letra, melodia e alma. O futebol é parecido: é jogado com técnica, tática, preparo físico, mas em alguns momentos, deve fundamentalmente ser praticado com raça e entrega. Com a alma. E isso não faltou ao professor Veron e a seus pupilos.

Um comentário:

Sku disse...

Parabéns pela analogia.

Espero que nosso Timão quebre essa escrita no próximo ano, quando estivermos comemorando o centenário do clube.

Forte abraço!

VAMOS JOGAR COM RAÇA E COM CORAÇÃO, É O TIME DO POVO, É O CORINGÃO!